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70 milhões de medidores inteligentes em 10 anos: o desafio bilionário do Brasil

Em: 17/08/2026 às 16:15h por Canal Energia

Com apenas 5% de penetração, país precisa instalar até 70 milhões de equipamentos nos próximos 10 anos em investimento que pode chegar a R$ 35 bilhões


O Brasil está diante de um dos maiores desafios de modernização de sua infraestrutura elétrica, a instalação de 60 a 70 milhões de medidores inteligentes nos próximos 8 a 10 anos, segundo projeções da Envol Energy Consulting. O investimento necessário pode chegar a R$ 35 bilhões, considerando apenas o custo dos equipamentos, que hoje variam entre R$ 400 e R$ 500. A transformação, impulsionada pela abertura do mercado livre de energia e pela transição energética, promete revolucionar a relação entre consumidores e distribuidoras, mas enfrenta desafios significativos relacionados a custos, infraestrutura, regulação e, principalmente, privacidade e segurança de dados.


Com penetração de apenas 5% a 6% desses equipamentos, o Brasil está significativamente atrasado em comparação com mercados maduros como Reino Unido e Estados Unidos, que já superam 60% de cobertura, enquanto o Japão se aproxima da universalização. No entanto, mudanças regulatórias recentes e metas ambiciosas de digitalização até 2035 devem acelerar a expansão do setor nos próximos anos

 

O que são medidores inteligentes e por que são essenciais


Os medidores inteligentes, também conhecidos como smart meters, são equipamentos digitais que registram o consumo e a geração de energia em intervalos horários, permitindo medir com precisão quanto cada consumidor utiliza ou injeta na rede elétrica. Diferentemente dos medidores convencionais, que exigem leitura manual mensal, os medidores inteligentes transmitem dados em tempo real para as distribuidoras por meio de redes de comunicação.


“O medidor inteligente é central para a transição energética. Se a energia não for corretamente valorada ao longo do dia, haverá distorções na forma como ela é consumida e remunerada”, afirma o CEO da Envol Energy Consulting, Alexandre Viana. Segundo ele, não se trata apenas de uma evolução tecnológica, mas de um elemento estruturante para a modernização do setor elétrico.

A tecnologia permite uma série de benefícios tanto para consumidores quanto para o sistema elétrico como um todo. É possível ter maior precisão no faturamento, identificação rápida de interrupções no fornecimento, redução de perdas técnicas e comerciais, possibilidade de tarifas diferenciadas por horário, integração com geração distribuída e veículos elétricos, e empoderamento do consumidor com informações detalhadas sobre seu consumo.

 

Abertura do mercado livre impulsiona demanda


A demanda por medidores inteligentes tende a crescer exponencialmente com a abertura gradual do mercado livre de energia no país. O decreto 13.097/2026 que foi assinado esta semana, regulamenta a abertura do mercado livre de energia para consumidores em baixa tensão no Brasil. Os consumidores industriais e comerciais poderão escolher livremente seu fornecedor de energia elétrica a partir de 25 de novembro de 2027 oficialmente. Já os demais terão a liberdade de escolher seu fornecedor de energia elétrica a partir de 25 de novembro de 2028 posteriormente.

Além disso, o decreto aponta que a medição para faturamento poderá ser realizada sem substituição obrigatória do sistema existente, facilitando a migração dos consumidores para o mercado livre. E o consumidor poderá solicitar substituição do sistema convencional por medição inteligente, arcando com custos, desde que haja infraestrutura técnica disponível adequada.

Dados do Anuário Estatístico de Energia Elétrica 2025, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), indicam que o país contava com mais de 94 milhões de unidades consumidoras em dezembro de 2024, sendo cerca de 82,9 milhões residenciais.

“Excluindo baixa renda e outras situações específicas, o mercado endereçado está entre 60 e 70 milhões de consumidores. Considerando que a penetração de medidores inteligentes ainda está na faixa de 5% a 6% no Brasil, estamos falando de um investimento significativo”, explica o sócio e diretor de estudos de mercado da Envol, Gustavo Franceschini.

Com a abertura do mercado livre, os consumidores poderão escolher seus fornecedores de energia e negociar preços e condições contratuais. No entanto, essa liberdade de escolha só será viável com medidores inteligentes capazes de registrar o consumo em intervalos horários e permitir a liquidação no mercado.


Distribuidoras aceleram implementação


As principais distribuidoras do país já iniciaram seus programas de implementação de medidores inteligentes, embora em ritmos diferentes, refletindo as características específicas de suas áreas de concessão e estratégias de modernização.

A Cemig se destaca como uma das líderes nacionais na implementação de medidores inteligentes, tendo já instalado quase 1 milhão de equipamentos (infraestrutura AMI) em sua área de concessão em Minas Gerais. A companhia planeja universalizar a tecnologia para atender à totalidade de sua base de clientes ao longo dos próximos 10 anos.

“O projeto de modernização do sistema de medição faz parte do compromisso contínuo da companhia com a inovação, a eficiência operacional e a melhoria da qualidade do atendimento prestado aos seus clientes em Minas Gerais. Todos os investimentos no programa seguem rigorosamente as diretrizes e critérios estabelecidos pela Aneel”, afirma o gerente de recuperação de energia da Cemig, Saad do Carmo Pereira.

Segundo o executivo, a implantação da medição inteligente traz avanços significativos para a gestão da rede elétrica e para a experiência do consumidor. “A tecnologia promove maior exatidão no faturamento, agilidade no diagnóstico de interrupções de fornecimento e redução no tempo de resposta em ocorrências operacionais. Além disso, empodera o consumidor ao disponibilizar um acesso mais transparente e detalhado às suas informações de consumo por meio dos canais oficiais da Companhia”, destaca ao CanalEnergia.

 

Energisa adota estratégia gradual e integrada


Já a Energisa está conduzindo a expansão da medição inteligente de forma gradual e estratégica, com foco na geração de valor para os consumidores e na modernização integrada de sua infraestrutura. Segundo o diretor de proteção à receita da Energisa, Newton Santos, o grupo possui atualmente aproximadamente 200 mil medidores com recursos de telemedição em operação, dos quais cerca de 130 mil são do tipo SMC (Sistema de Medição Centralizada).


“Como parte da estratégia de expansão da digitalização, a companhia prevê instalar cerca de 20 mil novos medidores SMC até dezembro de 2026 e outros 35 mil ao longo de 2027. A iniciativa amplia gradualmente a utilização de tecnologias digitais nas áreas de concessão da Energisa e fortalece a modernização da infraestrutura de distribuição”, afirma Santos ao CanalEnergia.

No plano apresentado ao Ministério de Minas e Energia (MME) em março de 2026, a companhia prevê atender à exigência regulatória de 4% das unidades consumidoras no biênio 2026-2027. “A expansão da digitalização será realizada de forma integrada a outras iniciativas de modernização das redes, como automação, telecomunicações e sistemas digitais, ampliando os benefícios da tecnologia para os consumidores e para a operação do sistema elétrico”, destaca o diretor


A Energisa não divulga o valor específico destinado à implementação dos medidores inteligentes. “Esses investimentos fazem parte de um planejamento mais amplo de digitalização das redes, que também contempla automação, telecomunicações, modernização de subestações e evolução dos sistemas digitais. A definição dos recursos considera o cronograma regulatório, as características de cada área de concessão e os benefícios esperados para os consumidores e para a operação do sistema elétrico”, explica Santos.


Sobre o repasse de custos, o diretor afirma que os investimentos realizados pelas distribuidoras seguem a regulamentação vigente e são considerados nos processos regulatórios da Aneel. “A Energisa trabalha para que os investimentos em digitalização resultem em ganhos de eficiência, qualidade e modernização dos serviços prestados aos consumidores”, afirma.


Benefícios


Entre os principais benefícios da medição inteligente, Santos destaca a facilidade para acompanhar informações de consumo, hábitos e gastos com energia elétrica de forma prática. A leitura remota proporciona maior rapidez na realização de serviços como ligação, corte e religação, além de identificação mais ágil de ocorrências na rede elétrica. Há possibilidade de utilização de novas modalidades de tarifação e maior integração entre o consumidor e a distribuidora por meio de canais digitais modernos e eficientes.

“Os medidores inteligentes permitem que o cliente tenha informações mais detalhadas sobre seu perfil de consumo, facilitando a identificação de hábitos e oportunidades de economia. Com acesso a essas informações por meio de plataformas e canais digitais, o cliente pode acompanhar melhor seu consumo, adotar hábitos mais eficientes e, quando aplicável, utilizar modalidades tarifárias diferenciadas de acordo com seu perfil de utilização”, explica.

O diretor reconhece que a expansão da medição inteligente envolve desafios significativos. Segundo ele, a expansão envolve a integração de diferentes tecnologias e sistemas, além da evolução da infraestrutura de telecomunicações necessária para conectar os equipamentos, especialmente em áreas mais remotas. A Energisa possui uma estratégia de digitalização que considera as características de suas diferentes áreas de concessão e permite implementar as soluções de forma coordenada e eficiente.

Sobre preocupações com privacidade, o executivo garante que a segurança da informação é prioridade. “A Energisa considera a segurança da informação e a proteção de dados como elementos fundamentais de sua estratégia de digitalização. Os sistemas de medição inteligente incorporam mecanismos de segurança cibernética e proteção das informações dos consumidores, em conformidade com a legislação e as normas aplicáveis”, destaca.


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