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Transmissão trava avanço dos data centers no Brasil

Em: 24/06/2026 às 09:00h por Canal Energia

Apesar da sobra de energia renovável, falta de infraestrutura para conectar grandes projetos de inteligência artificial ao sistema elétrico

 

O Brasil reúne os principais atributos buscados pelos grandes operadores globais de data centers: energia abundante, renovável e competitiva. Ainda assim, enfrenta um gargalo que ameaça limitar novos investimentos. O problema está na transmissão, afinal, ainda há poucos pontos de conexão para atender a nova demanda criada pela inteligência artificial (IA).


Essa é a avaliação de Glauco Freitas, presidente da Hitachi Energy no Brasil. Segundo o executivo, a expansão da rede não acompanhou o crescimento da geração de energia nos últimos anos.


Hoje, os data centers são vistos como parte da chamada indústria de IA. Trata-se de um segmento eletrointensivo, assim como a mobilidade elétrica, o hidrogênio verde e a mineração de ativos digitais. Todos exigem grandes volumes de energia. Um data center de grande porte consome, no mínimo, 100 MW. Já os projetos das gigantes globais de tecnologia operam em escala ainda maior. Os novos empreendimentos, afirma Freitas, já nascem com demanda superior a 1 GW.


Nesse cenário, o Brasil surge como destino natural. No entanto, a infraestrutura elétrica não acompanha o ritmo do mercado. “A geração cresceu. A transmissão não”, afirmou o executivo durante o Energy Summit, que acontece nesta terça-feira, 23 de junho, no Rio de Janeiro.


Freitas apresentou números de 2020 a 2025. Nesse período, a capacidade instalada de geração avançou cerca de 40%, passando de 175 GW para 245 GW. Por outro lado, a expansão da transmissão seguiu o ritmo histórico do setor, baseado em projeções de crescimento mais moderadas da demanda.


Desafio para o sistema elétrico

Nesse sentido, diz ele, o descompasso cria um novo desafio para o sistema elétrico. De um lado, aumentam as fontes renováveis, a geração distribuída e as cargas associadas à digitalização da economia. De outro, cresce a necessidade de garantir confiabilidade e resiliência à rede.


Assim, o resultado já aparece na prática. Muitos projetos de data centers estão reduzindo escala ou buscando conexão por meio das distribuidoras. Para Freitas, trata-se de uma solução menos eficiente para operações desse porte. “Esse consumidor precisa de energia de melhor qualidade e de conexão em alta tensão”, disse Freitas.


Segundo ele, o risco vai além da infraestrutura. Sem acesso à rede adequada, o país pode perder investimentos, empregos e arrecadação. Adicionalmente, afirma que o Brasil pode ter perdido a primeira onda global de implantação de grandes data centers voltados à IA. Enquanto isso, investidores planejam iniciar operações entre 2028 e 2029, reforços estruturais na transmissão devem entrar em operação apenas nos próximos anos.


“O mercado precisa encontrar formas de manter esses investimentos no país”, apontou o executivo.


Freitas considera que o Plano Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST) representa um avanço ao organizar a fila de conexão ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Ainda assim, afirma que a medida, sozinha, não resolve o problema. Para ele, o setor também precisa de instrumentos capazes de oferecer maior previsibilidade regulatória e segurança jurídica aos investidores.


Modernização de ativos

Paralelamente, a Hitachi Energy aposta na modernização de ativos como alternativa para ampliar a capacidade da rede em prazos menores.


A companhia anunciou recentemente investimentos de US$ 280 milhões na expansão da capacidade produtiva no Brasil. O pacote inclui a construção de um novo centro de serviços, com inauguração prevista para o fim deste ano.


A estratégia reflete uma mudança no mercado. Em vez de substituir equipamentos, empresas têm buscado reformar e modernizar ativos já instalados.


“Nem sempre conseguimos entregar um transformador novo no prazo necessário. Mas muitas vezes é possível modernizar um equipamento existente e devolver sua capacidade original”, afirma Freitas.


Além de reduzir custos, a solução acelera a expansão da infraestrutura. Em um setor pressionado pela demanda crescente, o ganho de tempo tornou-se um diferencial relevante.